quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Padaria Espiritual








No final do século XIX, em Fortaleza, Ceará, as praças do Ferreira e o Passeio público eram palco de encontro dos jovens intelectuais e boêmios da cidade, esses jovens reuniam-se para falar sobre política, artes e literatura.
Entre estes, um grupo em especial, destacava-se por não suportar a supervalorização da cultura européia que cismava em predominar na cidade, enquanto a produção cultural local era desprezada. O grupo era formado por pintores, músicos e escritores, boêmios, que se uniram e fundaram uma associação cultural com o objetivo de discutir a alienação e pobreza cultural da sociedade fortalezense da época.

Essa agremiação recebeu o nome de Padaria Espiritual. Fundada em 30 de maio de 1892, recebeu esse Nome porque seus membros tinham a pretensão de fornecer aos sócios e a sociedade em geral, o pão cultural, como uma forma de reeducação e apelo a sociedade hipócrita e alienada da época, segundo suas convicções. A Padaria Espiritual era composta por Antonio Sales (fundador), Rodolfo Teófilo, Juvenal Galeno, Adolfo Caminha, Lopes Filho, Eduardo Sabóia, Lívio Barreto, Antônio Castro, José carvalho, Álvaro Martins e Henrique Jorge. Na época, era comum a reunião de escritores e intelectuais que formavam a elite da sociedade cearense em associações e agremiações literárias, mas a Padaria Espiritual diferenciava-se por sua formação: enquanto as associações formadas por membros da elite cearense eram formais e rígidas, a Padaria Espiritual era formada por intelectuais, boêmios e cidadãos comuns e assumia um caráter marcado pelo humor, ironia e irreverência. Seus membros autodenominaram-se padeiros e organizavam-se como em uma padaria comum com padeiro-mor (presidente), dois Forneiros (secretários), um Gaveta (tesoureiro), um Guarda - livros (bibliotecário) e os Amassadores (sócios livres). Reuniam-se diariamente (com exceção das quintas-feiras) no número 105 da Rua Formosa, hoje Barão do rio Branco, no Café Javé, que era um quiosque localizado na Praça do Ferreira ou na casa dos padeiros e o produto do seu trabalho era um periódico que circulava aos domingos e como não poderia ser diferente, chamava-se O Pão.

Trava-se de um folheto no tamanho de uma folha A4, onde os padeiros tinham liberdade para publicar seus trabalhos, paródias, críticas, textos de outros autores cearenses, cantigas e versos do folclore cearense, em 8 páginas, utilizando pseudônimos de origem indígena ou sertaneja. Era uma publicação simples que não contava com qualquer subsidio e sofria limitações orçamentárias, Era proibido em qualquer publicação o uso de palavras estrangeiras ou animais que não nativos do Brasil numa postura radicalmente nacionalista. A Padaria espiritual não teve grande repercussão nacional, mas serviu para consolidar o realismo e o nascimento do simbolismo no Ceará. Durante o funcionamento do forno e o Periódico O Pão, foram lançadas obras que contribuíram bastante para a história da literatura brasileira como: Phatos (1893) de Lopes Filho Marinhas (1897) de Antônio de Castro Flocos (1894) de Sabino Batista Contos do Ceará (1894) de Eduardo Sabóia Cromos (1895) de X. de Castro Trovas do Norte (1895) de Antônio Sales Os Brilhantes (1895) de Rodolfo Teófilo Dolentes (1897) de Lívia Barreto Maria Rita (1897) de Rodolfo Teófilo Perfis Sertanejos (1897) de José Carvalho e posteriormente influenciaram a criação da Academia Cearense de Letras, em 15 de agosto de 1896 pioneira no Brasil. Foram 6 anos de irreverência, humor e muita produção cultural genuinamente brasileira, O Pão circulou seus 36 irreverentes números até se finar, segundo dizia seu padeiro-mor, Antônio Sales, de ``caquexia pecuniária''

Estatuto da Padaria Espiritual

1) Fica organizada, nesta cidade de Fortaleza, capital da "Terra da Luz", antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes de Letras e Artes, denominada Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espírito aos sócios em particular, e aos povos, em geral.
2) A Padaria Espiritual se comporá de um Padeiro-Mór (presidente), de dois Forneiros (secretários), de um Gaveta (tesoureiro), de um Guarda-livros na acepção intrínseca da palavra (bibliotecário), de um Investigador das Coisas e das Gentes, que se chamará Olho da Providência, e demais Amassadores (sócios). Todos os sócios terão a denominação geral de Padeiros.
3) Fica limitado em vinte o número de sócios, inclusive a Diretoria, podendo-se, porém, admitir sócios honorários que se denominarão Padeiros-livres.
4) Depois da instalação da Padaria, só será admitido quem exibir uma peça literária ou qualquer outro trabalho artístico que for julgado decente pela maioria.
5) Haverá um livro especial para registrar-se o nome comum e o nome de guerra da cada Padeiro, sua naturalidade, estado, filiação e profissão a fim de poupar-se à Posteridade o trabalho dessas indagações.
6) Todos os Padeiros terão um nome de guerra único, pelo qual serão tratados e do qual poderão usar no exercício de suas árduas e humanitárias funções.
7) O distintivo da Padaria Espiritual será uma haste de trigo cruzada de uma pena, distintivo que será gravado na respectiva bandeira, que terá as cores nacionais.
8) As fornadas (sessões) se realizarão diariamente, à noite, à excepção das quintas-feiras, e aos domingos, ao meio-dia.
9) Durante as fornadas, os Padeiros farão a leitura de produções originais e inéditas, de quaisquer peças literárias que encontrarem na imprensa nacional ou estrangeira e falarão sobre as obras que lerem.
10) Far-se-ão dissertações biográficas acerca de sábios, poetas, artistas e literatos, a começar pelos nacionais, para o que se organizará uma lista, na qual serão designados, com a precisa antecedência, o dissertador e a vítima. Também se farão dissertações sobre datas nacionais ou estrangeiras.
11) Essas dissertações serão feitas em palestras, sendo proibido o tom oratório, sob pena de vaia.
12) Haverá um livro em que se registrará o resultado das fornadas com o maior laconismo possível, assinando todos os Padeiros presentes.
13) As despesas necessárias serão feitas mediante finta passada pelo Gaveta, que apresentará conta do dinheiro recebido e despendido.
14) E proibido o uso de palavras estranhas à língua vernácula, sendo, porém, permitido o emprego dos neologismos do Dr. Castro Lopes.
15) Os Padeiros serão obrigados a comparecer à fornada, de flor à lapela, qualquer que seja a flor, com excepção da de chichá.
16) Aquele que durante uma sessão não disser uma pilhéria de espírito, pelo menos, fica obrigado a pagar no sábado café para todos os colegas. Quem disser uma pilhéria superiormente fina, pode ser dispensado da multa da semana seguinte.
17) O Padeiro que for pegado em flagrante delito de plagio, falado ou escrito, pagará café e charutos para todos os colegas.
18) Todos os Padeiros serão obrigados a defender seus colegas da agressão de qualquer cidadão ignáro e a trabalhar, com todas as forças, pelo bem estar mútuo.
19) É proibido fazer qualquer referência à rosa de Maiherbe e escrever nas folhas mais ou menos perfumadas dos álbuns.
20) Durante as fornadas, é permitido ter o chapéu na cabeça, exceto quando se falar em Homero, Shakespeare, Dante, Hugo, Goethe, Camões e José de Alencar porque, então, todos se descobrirão.
21) Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à Fauna e à Flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc.
22) Será dada a alcunha de "medonho" a todo sujeito que atentar publicamente contra o bom senso e o bom gosto artísticos.
23) Será preferível que os poetas da "Padaria" externem suas idéias em versos.
24) Trabalhar-se-á por organizar uma biblioteca, empregando-se para isso todos os meios lícitos e ilícitos.
25) Dirigir-se-á um apelo a todos os jornais do mundo, solicitando a remessa dos mesmos à biblioteca da "Padaria".
26) São considerados, desde já, inimigos naturais dos Padeiros - o Clero, os alfaiates e a polícia. Nenhum Padeiro deve perder ocasião de patentear seu desagrado a essa gente.
27) Será registrado o fato de aparecer algum Padeiro com colarinho de nitidez e alvura contestáveis.
28) Será punido com expulsão imediata e sem apelo o Padeiro que recitar ao piano.
29) Organizar-se-á um calendário com os nomes de todos os grandes homens mortos, Haverá uma pedra para se escrever o nome do Santo do dia, nome que também será escrito na Ata, em seguida à data respectiva. 30) A "Avenida Caio Prado" é considerada a mais útil e a mais civilizada das instituições que felizmente nos regem, e, por isso, ficará sob o patrocínio da Padaria,
31) Encarregar-se-á um dos Padeiros de escrever uma monografia a respeito do incansável educador Professor Sobreira e suas obras.
32) A "Padaria" representará ao Governo do Estado contra o atual horário da Biblioteca Pública e indicará um outro mais consoante às necessidades dos famintos de idéias.
33) Nomear-se-ão comissões para apresentarem relatórios sobre os estabelecimentos de instrução pública e particular da Capital relatórios que serão publicados,
34) A Padaria Espiritual obriga-se a organizar, dentro do mais breve prazo possível, um Cancioneiro Popular, genuinamente cearense.
35) Logo que estejam montados todos os maquinismos, a Padaria publicará um jornal que, naturalmente, se chamará O Pão.
36) A Padaria tratará de angariar documentos para um livro contendo as aventuras do célebre e extraordinário Padre Verdeixa.
37) Publicar-se-á , no começo de cada ano, um almanaque ilustrado do Ceará contendo indicações uteis e inúteis, primores literários e anúncios de bacalhau.
38) A Padaria terá correspondentes em todas as capitais dos países civilizados, escolhendo-se para isso literatos de primeira água.
39) As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes.
40) A Padaria desejaria muito criar aulas noturnas para a infância desvalida; mas, como não tem tempo para isso, trabalhará por tornar obrigatório a instrução pública primada.
41) A Padaria declara desde já guerra de morte ao bendegó do "Cassino".
42) É expressamente proibido aos Padeiros receberem cartões de troco dos que atualmente se emitem nesta Capital.
43) No aniversário natalício dos Padeiros, ser-lhes-á oferecida uma refeição pelos colegas.
44) A Padaria declara embirrar solenemente com a secção "Para matar o tempo" do jornal "A Republica", e, assim, se dirigirá à redação desse jornal, pedindo para acabar com a mesma secção. 45) Empregar-se-ão todos os meios de compelir Mané Coco a terminar o serviço da "Avenida Ferreira".
46) O Padeiro que, por infelicidade, tiver um vizinho que aprenda clarineta, pistom ou qualquer outro instrumento irritante, dará parte à Padaria que trabalhará para pôr termo a semelhante suplício.
47) Pugnar-se-á pelo aformoseamento do Parque da Liberdade, e pela boa conservação da cidade, em geral.
48) Independente das disposições contidas nos artigos precedentes, a Padaria tomará a iniciativa de qualquer questão emergente que entenda com a Arte, com o bom Gosto, com o Progresso e com a Dignidade Humana.

Amassado e assado na "Padaria Espiritual", aos 30 de Maio de 1892
Quem tiver alguma informação completar ou correção a fazer, fique a vontade para postar comentários!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Férias 2008 em Belém... já estou com saudades!

Feliz 2009!

Fogos na beira do rio para receber o novo ano











Praça da República sempre oferecendo uma boa imagem













Aquecimento para aula de dança


Visita à biblioteca pública de Belém

Banda Marinheiros do forró, nos divertimos muito ao som dessa banda incrível!


Meu amigo Zuca, esse magrelo é o melhor baerista que eu conheço!


Festaaaaaa!!!!


Imagem da estrada


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